Em uma revisão sistemática recente¹, foram encontradas 83 referências usadas para caracterizar as funções executivas! Apesar da grande quantidade de definições e modelos, existem convergências sobre o que, de fato, são as funções executivas. Elas caracterizam-se como um conjunto de processos cognitivos superiores necessários para orientar comportamentos em situações da vida diária e em momentos de aprendizagem, e que, permitem gerenciar e regular esses comportamentos². As funções executivas são muito necessárias quando você precisa se concentrar e prestar atenção em situações, sair do piloto automático, controlar impulsos, pensar em diferentes estratégias para resolver um problema. Elas são responsáveis pelo raciocínio, resolução de problemas e o planejamento diante das situações³. Didaticamente podemos entender que as FE são como um maestro da orquestra no qual ela precisa ‘tocar a banda’ para funcionar e fluir a música.
Existe um consenso de que os três componentes principais das funções executivas são controle inibitório, memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva. Cada componente tem sua função, porém todas se inter relacionam e funcionam conjuntamente para atingir uma meta³.
Controle Inibitório
O controle inibitório envolve a habilidade de controlar a atenção, o comportamento, os pensamentos e/ou as emoções de alguém para anular uma forte predisposição interna ou atração externa e fazer o que é mais apropriado ou necessário. Sem essa habilidade estaríamos totalmente sujeitos a nossos impulsos, padrões de pensamentos (ruminação) ou ações (respostas condicionadas). O controle inibitório auxilia a lidar com os estímulos do ambiente que nos induzem a determinadas respostas, a conseguir resistir a uma sobremesa se não couber na nossa dieta ou evitar brigar com alguém quando estamos muito irritados³.
Memória de Trabalho
A memória de trabalho (MT) envolve manter as informações em mente e trabalhar mentalmente com elas, ou seja, trabalhar com informações que não estão mais presentes na percepção⁴. Conhecida também como a memória RAM do nosso cérebro, ou seja, as múltiplas janelas abertas que temos mentalmente manipulando nossas ações e pensamentos. Ela se diferencia de acordo com a natureza do conteúdo, portanto pode ser do tipo verbal e não verbal. A MT é fundamental para dar sentido a qualquer coisa que exige etapas ao longo do tempo – isso requer ter em mente o que aconteceu antes e relacioná-lo com o que vem depois³. Déficits na memória de trabalho podem ser exemplificados em nossa vida diária em situações como ter dificuldade para seguir uma receita, explicar uma situação para alguém, ler um livro, realizar um cálculo matemático, traçar uma rota mental para ir a determinado local, contar uma história ou até mesmo fazer apresentações de trabalhos na escola. Ainda, é importante ressaltar que a memória de trabalho interage diretamente com o controle inibitório, e vice-versa: para o bom funcionamento da MT é relevante inibir distrações externas e internas para focar-se apenas na tarefa atual².
Flexibilidade cognitiva
Por fim, algumas habilidades importantes da flexibilidade cognitiva são a capacidade de mudar as perspectivas espacialmente, como visualizar mentalmente outro trajeto, ou interpessoalmente, como compreender o ponto de vista do outro. Além da habilidade de mudar a forma como pensamos sobre algo, como nas situações em que as resoluções que usamos não estão funcionando e precisamos desenvolver novos enfrentamentos (traçar diferentes planos). A flexibilidade cognitiva também envolve ser flexível o suficiente para se ajustar a novas demandas e prioridades, portanto, disfunções nessas habilidades podem aparecer em situações em que há uma dificuldade de admitir erros, dificuldade para se adaptar a uma quebra de planos ou rotina e dificuldade para mudar as estratégias quando as que possuímos não funcionam³.
Independente do modelo teórico e da definição utilizada, é consenso que as funções executivas são usadas em aspectos diversos da vida, e o bom funcionamento das FE está intimamente relacionado com melhor desempenho acadêmico, pessoal, profissional e para a manutenção da cultura e sociedade6.
Referências
1.BAGGETTA, P., ALEXANDER, P. A. Conceptualization and Operationalization of Executive Function. Mind, Brain, and Education, v. 10, p. 10-33, 2016.
2.MALLOY-DINIZ, L. F., DIAS, N. M. Funções executivas: modelos e aplicações. São Paulo: Pearson Clinical Brasil, 2020.
3.DIAMOND, A. Executive functions. Annual review of psychology, v. 64, p. 135–168, 2013.
4.BADDELEY, A. D., HITCH, G. J. Developments in the concept of working memory. Neuropsychology, v. 8, p. 485–93, 1994.
5.DAVIDSON, M. C., AMSO, D., ANDERSON, L. C., DIAMOND, A. Development of cognitive control and executive functions from 4 to 13 years: Evidence from manipulations of memory, inhibition, and task switching. Neuropsychologia, v. 44, p.2037-2078, 2006.
6. BORELLA, E., CARRETTI, B., PELGRINA, S. The specific role of inhibition in reading comprehension in good and poor comprehenders. J Learn Disabil, v.43, ed.6, p. 541–52. 2010.
