O Transtorno do Déficit de Atenção e/ou Hiperatividade é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por um padrão persistente de sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade, que interfere no funcionamento ou desenvolvimento do indivíduo¹. A prevalência estimada do TDAH no mundo ocorre em cerca de 7,2% em crianças e em 2,5% dos adultos².
Embora o TDAH tenha início na infância, cerca de 60% das pessoas diagnosticadas continuam a apresentar sintomas na vida adulta. Destes, 41% ainda preenchem critérios diagnósticos completos, demonstrando que o transtorno não é algo que “desaparece com a idade”³.
Entre adultos, a proporção entre homens e mulheres com TDAH é de aproximadamente 1,6:1. Em termos de manifestações, cerca de 70% dos adultos com TDAH apresentam a forma combinada do transtorno, enquanto 25% têm sintomas predominantemente desatentos. A forma predominantemente hiperativo-impulsiva afetando menos de 5% dos pacientes adultos⁴.
O TDAH raramente é causado por um único fator de risco genético ou ambiental! A maioria dos casos de TDAH é causada pelos efeitos combinados de muitos riscos genéticos e ambientais
RISCOS GENÉTICOS e RISCOS AMBIENTAIS
- Fatores pré-natais e perinatais
- Tabagismo materno e uso de álcool
- Baixo peso ao nascer
- Nascimento prematuro
- Exposição a toxinas ambientais, como pesticidas
- Histórico familiar e arquitetura poligênica
- Adversidade familiar
- Falta de suporte parental
- Coesão familiar
- Uso de álcool/drogas pelos pais
O Impacto do TDAH e Suas Comorbidades
O TDAH frequentemente coexiste com outros transtornos, como ansiedade, depressão maior, transtorno desafiador de oposição, transtorno de conduta, personalidade antissocial e dificuldades de aprendizagem² (Faraone et al., 2021)
Ao longo da vida, o TDAH também pode estar associado a diferentes dificuldades associadas. A figura do artigo de Faraone et al. (2015)⁵ descreve os principais prejuízos nas diferentes faixas etárias:

Referência: Faraone, S. V., Asherson, P., Banaschewski, T., Biederman, J., Buitelaar, J. K., Ramos-Quiroga, J. A., … Franke, B. (2015). Attention-deficit/hyperactivity disorder. Nature Reviews Disease Primers, 15020. doi:10.1038/nrdp.2015.20
Dessa forma, os principais impactos que podem estar associados ao TDAH são:
- Saúde física e mental: Maior risco de mortalidade prematura, problemas de saúde como obesidade, hipertensão e vícios, além de condições psiquiátricas como depressão e ansiedade.
- Relacionamentos sociais e familiares: Dificuldades com relacionamentos interpessoais e familiares, rejeição social, separação conjugal, e problemas parentais.
- Desempenho acadêmico e ocupacional: Baixo desempenho escolar, abandono escolar, dificuldades no trabalho, desemprego e status socioeconômico inferior.
- Comportamentos de risco: Delinquência, criminalidade, vícios, gravidez não planejada, acidentes e lesões.
- Bem-estar emocional: Baixa autoestima, desregulação emocional, ideação suicida e risco aumentado de suicídio.
Funções Executivas e o TDAH: Uma Relação Complexa
Esse transtorno não é causado por falta de esforço, disciplina ou “preguiça”. Ele tem raízes biológicas, envolvendo alterações na estrutura e funcionamento do cérebro, particularmente em áreas ligadas às funções executivas – como planejamento, controle de impulsos e regulação emocional.
Estudos sugerem que os prejuízos observados em indivíduos com apenas TDAH não são explicados apenas pelos sintomas centrais do transtorno (desatenção, impulsividade e hiperatividade). A presença de déficits nas funções executivas (FEs) tem sido associada a presença de desfechos negativos em indivíduos com TDAH⁶.
As funções executivas são uma família de processos mentais top down, necessários para se concentrar e prestar atenção em situações, sair do piloto automático, controlar impulsos e pensar em diferentes estratégias para resolver um problema⁷. Elas são responsáveis pelo raciocínio, resolução de problemas e o planejamento diante das situações. Essas funções desempenham um papel crítico no gerenciamento das múltiplas e complexas tarefas da vida diária. Em indivíduos com TDAH os déficits executivos são observados no controle inibitório, memória de trabalho, autorregulação emocional e motivacional, planejamento, resolução de problemas⁸.
Quer saber mais sobre Funções executivas? Acesse nosso artigo sobre Funções executivas: o que são?
Diagnóstico e Tratamento
O diagnóstico do TDAH é clínico e exige uma avaliação cuidadosa por profissionais qualificados. Ele considera a história de vida da pessoa, relatos familiares e avaliações neuropsicológicas, quando necessário.
O tratamento geralmente é multimodal, combinando intervenções como²:
- Medicação
- Psicoeducação: ajudar o indivíduo e sua família a entenderem o transtorno.
- Psicoterapia: especialmente abordagens como terapia cognitivo-comportamental (TCC), que trabalha habilidades práticas para lidar com os sintomas.
- Apoio escolar e ocupacional: adaptações podem ser feitas para facilitar o aprendizado e o desempenho no trabalho.
Um Novo Olhar para o TDAH
É fundamental desmistificar o TDAH e reconhecer que ele não define quem a pessoa é. Embora traga desafios, com o suporte adequado, indivíduos com TDAH podem construir vidas produtivas e satisfatórias.
Se você suspeita que você ou alguém próximo possa ter TDAH, procure um profissional especializado. Diagnóstico e tratamento são passos importantes para transformar desafios em oportunidades de crescimento.
Referências:
¹American Psychiatric Association (APA). (2022) Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5 TR 5. Ed. revisada. Porto Alegre: Artmed.
²Faraone, S. V., Banaschewski, T., Coghill, D., Zheng, Y., Biederman, J., Bellgrove, M. A., Newcorn, J. H., Gignac, M., Al Saud, N. M., Manor, I., Rohde, L. A., Yang, L., Cortese, S., Almagor, D., Stein, M. A., Albatti, T. H., Aljoudi, H. F., Alqahtani, M. M. J., Asherson, P., Atwoli, L., … Wang, Y. (2021). The World Federation of ADHD International Consensus Statement: 208 Evidence-based conclusions about the disorder. Neuroscience and biobehavioral reviews, 128, 789–818. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2021.01.022
³Sibley, M. H., Swanson, J. M., Arnold, L. E., Hechtman, L. T., Owens, E. B., Stehli, A., Abikoff, H., Hinshaw, S. P., Molina, B. S. G., Mitchell, J. T., Jensen, P. S., Howard, A. L., Lakes, K. D., Pelham, W. E., & MTA Cooperative Group (2017). Defining ADHD symptom persistence in adulthood: optimizing sensitivity and specificity. Journal of child psychology and psychiatry, and allied disciplines, 58(6), 655–662. https://doi.org/10.1111/jcpp.12620
⁴Anbarasan, D., Kitchin, M., & Adler, L. A. (2020). Screening for Adult ADHD. Current psychiatry reports, 22(12), https://doi.org/10.1007/s11920-020-01194-9
⁵Faraone, S. V., Asherson, P., Banaschewski, T., Biederman, J., Buitelaar, J. K. Ramos-Quiroga, J. A., Rohde, L. A., Sonuga-Barke, E. J., Tannock, R., & Franke, B. (2015). Attention-deficit/hyperactivity disorder. Nature reviews. Disease primers, 1, 15020. https://doi.org/10.1038/nrdp.2015.20
⁶Barkley, R. A., & Murphy, K. R. (2010). Impairment in occupational functioning and adult ADHD: the predictive utility of executive function (EF) ratings versus EF tests. Archives of clinical neuropsychology : the official journal of the National Academy of Neuropsychologists, 25(3), 157–173. https://doi.org/10.1093/arclin/acq014
⁷DIAMOND, A. Executive functions. Annual review of psychology, v. 64, p. 135–168, 2013.
⁸Nigg, J. T., Blaskey, L. G., Huang-Pollock, C. L., & Rappley, M. D. (2002). Neuropsychological executive functions and DSM-IV ADHD subtypes. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, 41(1), 59–66. https://doi.org/10.1097/00004583-200201000-00012
